
Como Roberto Marinho preservou o Grupo Globo: lições de planejamento sucessório

Derick Heliston — Advogado
A transmissão do Grupo Globo mostra na prática como uma holding familiar protege o patrimônio, organiza a sucessão e evita brigas entre herdeiros.
A transmissão do Grupo Globo após a morte de Roberto Marinho, em 2003, é um dos casos mais conhecidos de planejamento sucessório empresarial no Brasil. O que pouca gente sabe é que essa transição não aconteceu por acaso — foi resultado de uma estrutura jurídica planejada com anos de antecedência.
O que é uma holding familiar?
Uma holding familiar é uma empresa criada pela família para administrar seus bens. Em vez de cada membro possuir bens em seu próprio nome, todos ficam dentro da holding. Quando alguém falece, não é necessário partilhar imóveis, contas ou participações — apenas as quotas da holding são transmitidas, preservando a unidade do patrimônio.
Como isso funciona na prática?
O Código Civil permite que qualquer pessoa constitua relações jurídicas, incluindo empresas. Quando os bens estão em nome de uma empresa, o que se transmite aos herdeiros são as quotas, e não os bens diretamente. Isso preserva a gestão unificada e evita fragmentação.
A lei define a seguinte ordem de herança: primeiro os descendentes (filhos, netos), depois os ascendentes (pais, avós), depois o cônjuge e, por último, os colaterais (irmãos, tios). A holding permite que o titular defina, ainda em vida, as regras de transmissão — reduzindo conflitos no momento mais delicado para a família.
Os instrumentos que a família Marinho utilizou:
Sociedade de capital fechado — as ações não circulam no mercado, impedindo que estranhos assumam o controle.
Cláusulas de restrição à transmissibilidade — o contrato social pode exigir aprovação dos demais sócios antes de qualquer venda ou transferência de quota.
Doação como adiantamento de herança — quando um pai doa bens a um filho em vida, esse valor é computado como antecipação do que o filho receberia na partilha. Isso permite transferir quotas gradualmente, reduzindo o imposto no momento da morte.
Separação patrimonial — o Código Civil garante que o patrimônio da empresa é separado do patrimônio pessoal dos sócios. Credores pessoais de um sócio não podem tomar os bens da holding, salvo em casos de fraude comprovada.
Por que isso importa para você?
O planejamento sucessório não é exclusivo de grandes fortunas. Uma holding familiar pode ser criada por qualquer família que queira organizar seu patrimônio, evitar litígios entre herdeiros e garantir que a vontade do titular seja respeitada.
*As informações deste artigo têm caráter meramente informativo e não constituem parecer jurídico. Cada caso deve ser analisado individualmente por um profissional habilitado.*
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